A dignidade de uma instituição secular não pode ser sacrificada no altar das conveniências político-partidárias. A imagem que partilho é do túmulo do meu avô paterno, EKUIKUI KALUPE, mais tarde registado Paulo EKUIKUI KALUPE, nascido presumivelmente na década de 1870 e falecido em 1945, no Mbalundu, cujos restos repousam no cemitério do da missão Evangélica do Chilume.
Por Paulo Lukamba Gato
O meu avô foi diácono do Centro Evangélico de Kaputu, no município do Chiyumbu. Foi um homem respeitado na sua comunidade, uma figura da elite tradicional e religiosa do seu tempo.
O nome EKUIKUI que ostentava, constitui para nós um importante testemunho da nossa ligação histórica à linhagem real do Mbalundu.
É precisamente essa herança que me confere, não um privilégio mas uma obrigação moral de defender a dignidade, a independência e o prestígio de uma instituição que atravessou séculos da nossa história.
O Reino do Mbalundu existia muito antes do aparecimento dos partidos políticos angolanos, cujos primeiros movimentos de libertação nacional surgiram no final da década de 1950 e no início dos anos 1960.
Os reis passaram, as gerações sucederam-se, os regimes políticos transformaram-se mas a instituição real permaneceu como símbolo da identidade, da história e da continuidade cultural do nosso povo.
É por isso que considero profundamente lamentável e condenável a postura do actual Rei do Mbalundu que se apresenta como militante do partido que governa Angola, envolvendo a autoridade tradicional nas disputas político-partidárias.
Um rei não comportar-se como um simples militante partidário, porque a sua autoridade não deriva de um cartão de militante mas de uma legitimidade histórica, cultural e tradicional muito anterior à existência dos partidos.
O Rei do Mbalundu não é rei dos militantes de um partido. É rei de um povo que integra cidadãos de diferentes sensibilidades políticas, religiosas e sociais.
Ao assumir publicamente uma identidade partidária, compromete a imparcialidade que a sua função exige, fragiliza a autoridade moral da instituição e corre o risco de transformar um património colectivo num instrumento de conveniência política.
Não contesto o direito individual de qualquer cidadão possuir convicções políticas. Contesto, isso sim, a confusão entre essas convicções e o exercício de uma autoridade tradicional que pertence a toda uma comunidade.
Os partidos políticos são instituições do presente. O Reino do Mbalundu é uma herança de séculos. Não podemos permitir que o primeiro se aproprie do segundo.
Como descendente de uma família historicamente ligada à instituição real, não posso assistir em silêncio à sua descaracterização.
O meu avô faleceu em 1945, muito antes da existência dos actuais partidos políticos angolanos. A sua memória recorda-me que a dignidade da nossa linhagem não nasceu com nenhum partido e não deve ficar subordinada a nenhum governo.
Defender esta independência não é combater a monarquia tradicional. É, pelo contrário, protegê-la de quem, mesmo ocupando o trono, possa comprometer o seu prestígio e a sua legitimidade histórica.
O trono do Mbalundu não é uma extensão da sede de nenhum partido político!
